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Uma história da Palestina a partir da literatura de resistência: Ghassan Kanafani e a inércia do exílio

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Mariane Soares Gennari[1]*

 

RESUMO:

Este artigo apresenta a proposta literária do autor palestino Ghassan Kanafani (1936-1972) para a construção de uma narrativa histórica sobre a Palestina, a partir do seu romance Homens ao Sol (1963) e da relação entre o significado do exílio e a percepção de uma inércia política após a Nakba, especialmente na primeira década pós-1948.

 

PALAVRAS-CHAVE: Narrativa histórica; Literatura de resistência; Ghassan Kanafani, Homens ao Sol, Exílio palestino.

 

ABSTRACT:

This article presents the literary proposal written by the Palestinian author GhassanKanafani (1936-1972), to build a historical narrative about Palestine writing his first novel Men in the Sun (1963) and from the relationship between the meaning of exile and the perception of a political inertia after Nakba, specially in the first decade post 1948.

 

KEYWORDS: Historical narrative; Resistance literature; GhassanKanafani, Men in the Sun; Palestinian exile.

 

 

 

Introdução

 

Após a guerra e a consolidação do Estado de Israel em 1948, os árabes que viviam na região da Palestina tornaram-se reféns da estrutura normalizada pelos Estados nacionais. O destino dessa população foi o exílio, em suas múltiplas facetas. A Nakba foi uma catástrofe histórica que desestruturou diferentes aspectos da vida palestina, iniciando uma tragédia, que ao longo da primeira década, entre 1948 e 1958, teve como expressão certa inércia política dos palestinos. Após massacres e expulsões, sem casa, sem lugar de retorno e sem esperanças, as pessoas se viram em uma situação de luta por sobrevivência. A nostalgia do passado enraizava-se profundamente em suas memórias. Os projetos para o futuro dos palestinos pareciam estar distantes da Palestina e, assim, a história do chamado “conflito Israel-Palestina” passou a ser escrita e conhecida a partir de um ponto de vista daqueles que detinham o monopólio da produção do conhecimento, muitas vezes, legitimando as ações do presente. Os sionistas, como parte de um projeto nacional colonizador, reescreviam a sua própria versão da história.

Ghassan Kanafani, autor palestino nascido da cidade de Acre em 1936. Exilado aos 12 anos, viveu em diversas cidades do mundo árabe. Além de escritor, foi jornalista, professor e militou na Frete Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) até o seu assassinato em 1972, quando uma bomba foi colocada em seu carro, na cidade de Beirute, no Líbano, local em que ele residia e trabalhava (Riley, 2000). Ganhou reconhecimento não só pelo seu engajamento mas, também, pela literatura que produziu, dedicou-se ao longo da sua curta vida, à construção de um olhar crítico sobre o exílio palestino a partir da sensibilidade literária. Era uma outra forma de contar a história das consequências da Nakba.

Seu romance Homens ao Sol (1963) narra a situação de três homens exilados que vivem no Iraque e tentam fugir para o Kuwait em busca de uma vida mais digna. Submetidos às imposições dos contrabandistas que realizam a travessia entre as fronteiras, Abu-Qays, Assaad e Marwan não possuíam o dinheiro exigido e, ao longo da narrativa, revisitam suas memórias em busca de um sentido para suas vidas, sobrevivendo a um presente intermitente e desejando um futuro inalcançável. A ajuda de um quarto protagonista, Abul-Khayzuran, dá fôlego aos três exilados, ao oferecer para levá-los pelo deserto dentro do tanque de água vazio de seu caminhão. O calor insuportável coloca em dúvida a escolha pela fuga. O passado poderia ser abandonado? Kanafani parece dar uma resposta ao apresentar o desfecho de sua narrativa.

Para o autor, durante a década de 1950, estava claro que a resignação não traria nenhum retorno benéfico para quem fosse palestino. A busca por compreensão e as incertezas sobre o que ocorrera em 1948 levariam ao enfraquecimento do movimento nacional, que se viu isolado e arruinado diante de interesses coloniais tão bem consolidados a partir das alianças entre a Europa e o movimento sionista. O texto literário de Kanafani foi produzido como um convite de resistência ao exílio e uma proposta para retomar a Palestina também para os palestinos, propondo uma outra narrativa histórica, que supere as tradições coloniais, dialogando com os esforços de emancipação em todo o mundo.

 

O surgimento histórico do exílio palestino

 

Em Homens ao Sol, a condição de exilado é evidente na constituição da identidade dos protagonistas. Na tentativa de atravessar a fronteira entre Kuwait e Iraque, a humilhação pela qual estão submetidos acompanha cada um deles em suas buscas por uma nova realidade. Nos três primeiros capítulos do livro, os palestinos tentam, sem sucesso, negociar com os contrabandistas, aumentando as frustrações e angústias propiciadas pelo exílio. O resultado histórico do arranjo mundial da época contemporânea, pautado pela criação dos Estados-nação, aponta para a existência de significativos grupos de pessoas deslocadas, vivendo em movimento, fora da estrutura hegemônica onde culturas e línguas específicas pertencem a determinados territórios geográficos.  Edward Said lembrou que “o exílio tem origem na velha prática do banimento” (Said, 2003: 54), o que significa que os exilados estão banidos ou apartados do direito de existir, sem qualquer possibilidade de decidirem sobre a continuidade e a condição de suas vidas. Said continua: “grande parte da vida de um exilado é ocupada em compensar a perda desorientadora, criando um novo mundo para governar” (Idem).

Um dos caminhos para evitar o banimento e criar uma nova chance no mundo passa pela necessidade de construir, então, uma identidade que seja reconhecida nessa configuração mundial. O fortalecimento da identidade nacional palestina é percebido nesse contexto e o reconhecimento de que a Palestina é um lugar de disputa de narrativas identitárias é fundamental para compreender a existência do exílio palestino. Afinal, Israel surgiu como resultado de um projeto arquitetado desde a segunda metade do século XIX e tem sido, desde 1948, a concretização desse projeto, cujo caráter colonial tem se fortalecido ao definir, por exemplo, seus cidadãos conforme critérios étnico-religiosos e, principalmente, manter a construção de assentamentos considerados ilegais pelo direito internacional. O sociólogo Gershon Shafir em seu livro sobre as origens do conflito entre Palestina e Israel expõe o cenário: “Foi essencialmente no contexto desse conflito nacional que tanto o lado dos judeu quanto o dos árabes assumiu suas identidades modernas. Transformou os judeus imigrantes em israelenses e o rudimentar sionismo da Europa Oriental em práticas concretas na formação do Estado e da nação israelenses. Os residentes árabes da Palestina desenvolveram o seu nacionalismo distinto próprio e se tornaram palestinos no mesmo contexto” (Shafir, 1996: 5).

 

A construção da identidade palestina, apesar disso, iniciou-se ainda durante o Império Otomano, com a valorização das tradições islâmicas, o acesso aos meios de comunicação e o surgimento de uma minoria urbana educada. Foi após a Nakba, em 1948, no entanto, que houve uma intensificação dessa luta por reconhecimento. O historiador Rashid Khalidi debruçou-se cuidadosamente sobre essa questão em seu livro Palestinian Identity: the construction of modern national cousciousness (2010) ao apresentar os debates sobre a construção de uma nação palestina, potencializados desde o fim da Primeira Guerra Mundial, pouco antes do Mandato Britânico exercer controle sobre a região da Palestina, abrindo espaço para projetos coloniais que ameaçariam a presença árabe no território nas décadas seguintes e desencadeariam a necessidade da luta nacional palestina.

A partir de 1948, o poder, a força e o planejamento do sionismo na construção do lar nacional suplantaram as tentativas de palestinos – sejam os movimentos populares ou os pesquisadores acadêmicos – na luta pela preservação das memórias sobre a Nakba. Assim como restringiram a difusão das narrativas de sua história. O livro do historiador Nur Masalha, The Palestine Nakba: Decolonising history, narrating the subaltern, reclaiming memory, mostra, por exemplo, os esforços empreendidos pelo sionismo na construção de uma narrativa e de uma memória que, por um lado, exalta a existência de judeus no território e seu direito de preempção e, por outro, busca encobrir a presença histórica de árabes na mesma região (Masalha, 2012: 137-8). Dessa forma, com o desmantelamento dos otomanos, os árabes passaram pelo processo de construção da identidade especificamente palestina, distinta de outras populações árabes do Oriente Médio, bem como do norte da África, como forma de garantirem sua presença.

Nesse contexto, a consolidação dos mitos fundacionais foi oficializada pelas políticas israelenses na construção de sua legitimidade histórica. Isso ocorreu de distintas formas, segundo aponta o estudo de Masalha. A renomeação de ruas e espaços públicos, a adoção de uma língua moderna oficial e a readequação de paisagens (Ibídem: 120-134) são exemplos dessa tentativa de criar uma realidade atual respaldada por um passado verossímil. O autor ainda lembra que “em 1958, uma década após a Nakba, as autoridades israelenses destruíram 27 mil livros, a maioria deles manuais palestinos do período pré-1948, alegando que ou eles eram inúteis ou ameaçavam o Estado” (Ibídem: 139).

A Guerra de 1948 concretizou aquilo que era um projeto colonizador. Conhecida como Limpeza Étnica, a expulsão, desterritorialização e massacre dos árabes palestinos durante a Nakba constituiu não apenas uma consequência de guerra, mas fez parte de um plano previamente arquitetado pelo movimento sionista conforme expôs a pesquisa de Ilan Pappé em seu livro The Ethnic Cleansing of Palestine (2006). O historiador Walid Khalidi também comentou o que se efetivou do Plano Dalet, um dos mais conhecidos da Guerra de 1948: “Plano Dalet” ou “Plano D” foi o nome dado pelo Alto Comando Sionista ao plano geral de operações militares, no âmbito do qual os sionistas lançaram ofensivas sucessivas em abril e início de maio de 1948 em várias partes da Palestina. Essas ofensivas, que implicaram a destruição da comunidade árabe palestina e a expulsão e pauperização da maior parte dos árabes da Palestina, foram calculadas para realizar atuações militares irreversíveis sobre as quais o Estado de Israel deveria estar estruturado (Khalidi, 1988: 8).

Assim, os sionistas implementavam o projeto do que viria a ser o lar nacional do povo judeu em um Estado com maioria judaica, o Estado de Israel. Após 1948, os palestinos tornaram-se exilados de diversas formas. Sem um Estado, os exilados da Palestina passaram a ser todos os palestinos. Edward Said, sobre isso, afirmou estar “certo de que qualquer um deles se julga em exílio, embora saibam perfeitamente bem que o tipo e as condições de exílio variam muito” (Said, 2012; 133).

Os palestinos se consideram em exílio quando vivem em comunidades ao redor do mundo, seja nos países árabes do Oriente Médio, na Europa, na América do Norte ou do Sul e são, nesses lugares, identificados como palestinos, logo, não pertencem ao lugar em que vivem. Os que vivem na Cisjordânia ou Faixa de Gaza sob ocupação militar israelense sentem-se exilados por terem sido expulsos dos locais onde viviam até 1948 (Nakba, ano da criação do Estado de Israel) ou até 1967 (Guerra dos Seis Dias, quando Israel ampliou a sua ocupação territorial na Cisjordânia) – ambos os anos são conhecidos momentos de deslocamentos populacionais de palestinos na região –, sendo privados de liberdades e direitos comuns aos povos com identidades nacionais reconhecidas. Os palestinos que foram incorporados pelo Estado de Israel e possuem cidadania israelense se sentem exilados também, por terem sido expulsos de vilas que hoje estão localizadas em território israelense, sem poder retornar para reconstruir o local e, além disso, por serem excluídos de uma sociedade que oferece privilégios legais a uma parcela da população utilizando critérios étnico-religiosos (Kamm, 2003). Por fim, os filhos de palestinos que crescem ouvindo os relatos de seus pais e avós sentem-se exilados por não terem tido a chance de viver no mesmo lugar que sua família nasceu e, em muitos casos, tampouco poder visitá-lo (Hammer, 2005).

Edward Said estava preocupado em discutir a diversidade dessa condição dos palestinos, e observou que “Cada comunidade palestina precisa lutar para manter sua identidade em ao menos dois níveis: em primeiro lugar, como palestino diante do encontro histórico com o sionismo e a perda precipitada de sua pátria; em segundo lugar, como palestino no cenário da vida cotidiana, respondendo às pressões em seu estado de residência. Nenhum palestino tem um Estado como palestino, embora seja “de” um Estado, sem pertencer a ele, no qual ele reside no momento. Há palestinos libaneses, e palestinos norte-americanos, assim como há palestinos jordanianos, sírios e cisjordanos; proporcionalmente, eles crescem mais do que os judeus israelenses e outros árabes, como se a multiplicação das complicações se estendesse à multiplicação dos corpos. Hoje crianças palestinas nascem tanto em Nova York quanto em Amã; elas ainda se identificam como “originárias de” Shafa’Amr, Jerusalém ou Tiberíades. Essas reivindicações são quase inexpressivas, exceto pelo fato de que se somam a uma presença genealógica paradoxalmente palestina, que se estabelece contra a lógica da história e da geografia. Os palestinos extraem seu senso de detalhe e realidade do uso dos padrões de uma fusão concreta de tempo e espaço. O padrão começa na Palestina, com um pedaço de terra real, embora parcialmente mitificado, uma casa, uma região, uma vila ou talvez apenas um empregador; então desloca-se para assumir o fim de uma identidade nacional coletiva (mesmo permanecendo na antiga Palestina), o início de um exílio concreto que sempre colide (depois, de maneira mais sutil) com leis destinadas especificamente aos palestinos e, por fim, um sentido de esperança e de orgulho pelas realizações palestinas” (SAID, 2012: 139-140).

No encontro entre as personagens de Homens ao Sol fica evidente esse contraste entre as identidades palestinas. O momento em que Assaad está tentando opinar durante o acordo com o motorista palestino Abul-Khayzuran, sua postura intransigente soa como reflexo do próprio mundo onde está, procurando pertencer a um lugar que não o reconhece. Ao questionar sobre detalhes de como será realizado o contrabando, recebe uma resposta atravessada do motorista: “Isso é problema meu…” (Kanafani, 2012: 86), mas a sua reação é contundente: “Não meu senhor… É problema nosso… Você deve nos explicar todos os detalhes. Não queremos ter problemas desde o início” (Ibídem).

Calejado de traições, Assaad deseja saber tudo sobre o plano e, com a anuência de seus colegas exilados, exige que o pagamento seja realizado após a chegada ao destino. Espera compreensão como se um certo reconhecimento identitário indicasse prévia aceitação dos termos acordados sobre o contrabando: “Viemos do mesmo país. Queremos ganhar dinheiro e você também. Mas a coisa deve ficar bem clara. Você deve nos explicar cada passo em detalhes e nos dizer exatamente quanto quer” (Ibidem: 87).

A exigência feita pelos exilados é aprovada pelo motorista. No entanto, em seguida, essa aparente fraternidade é submetida ao benefício material da relação que começou a se delinear entre os exilados e o palestino legalizado. Abul-Khayzuran apresenta o preço a ser pago e não admite negociar o valor, ameaça desistir do plano se quiserem pagar menos do que aquilo que ele exigiu: “já temos divergência antes mesmo de começarmos. Era disso que eu tinha medo… Dez dinares e nem um centavo a menos…” (Ibid.: 88), sua atitude contradiz o momento anterior quando abordou Marwan dizendo que dinheiro não era importante, enquanto pedia segredo ao revelar que poderia cobrar um valor maior aos outros (Ibidem:78), insinuando que os interesses particulares sobrepõem-se à irmandade estabelecida anteriormente.

Portanto, as diferenças de condições de identidade entre os palestinos compõem relevância ao analisar as diversas facetas do que significa ser palestino em um contexto em que o Estado nacional é ausente. Sem um lugar de origem estabelecido ou perspectivas temporais de mudança da realidade, o exílio acompanha o palestino, qualquer que seja sua situação no mundo.

 

Entre as memórias e a inércia

 

Ao longo do enredo, os três exilados buscam, entre suas memórias, justificar as escolhas que fazem no presente. Cada vez mais distantes da Palestina, eles projetam suas vidas para um lugar desconhecido, onde acreditam que teriam melhores condições de vida e evitariam os sofrimentos de viver em um campo de refugiados. Abul-Khayzuran, mais conformado e adaptado à condição de exilado, também recorre às suas memórias para justificar a vida que leva trabalhando como motorista para um conhecido proprietário na região da fronteira entre Iraque e Kuwait.

Importante pontuar que a Nakba gerou graves consequências, abalando os sensos temporais dos palestinos, que vivem um momento, sempre desejando outro, seja a partir da nostalgia do passado ou de uma esperança sobre o futuro. Nessa dimensão temporal, a primeira década após 1948 gerou um estado em que se tentava digerir o que ocorrera com a Palestina. Essa busca por entendimento, ao lado de todos os esforços do projeto colonial sionista, contribuiu para imobilizar politicamente boa parte da população árabe palestina.

Esse momento dialoga com a memória sobre Saad, um amigo do senhor Abu-Qays que havia conseguido imigrar e construir uma nova vida fora da Palestina e aconselhava sempre sobre o que fazer com suas dúvidas: “Nos últimos dez anos, você não fez nada a não ser esperar… Você precisou de dez longos anos de fome para acreditar que havia perdido suas árvores, sua casa, sua juventude e sua aldeia, tudo… As pessoas buscaram seu próprio caminho durante esses longos anos, enquanto você se sentou como um velho cão em uma casa miserável… O que será que você estava esperando? Que uma fortuna caísse do telhado da sua casa…? Sua casa? Não é a sua casa… Um homem generoso lhe disse: ‘Viva aqui!’. Isso é tudo. Um ano depois, ele lhe disse: ‘Me dê metade da sala!’; assim, você ergueu alguns sacos remendados entre você e os novos vizinhos…” (Ibidem.: 54).

A espera, relembrada em muitas das passagens do romance, é inerente à condição do exilado palestino. Desde a guerra de 1948, os palestinos que perderam suas casas, aguardam o retorno ao lar, à terra, à vida perdida. Em suas memórias, Abu-Qays escuta uma constante lembrança de que o passado que conhecia não voltará e é alertado de que a solução é seguir em frente e buscar “seu próprio caminho” porque a espera para reconquistar o que foi perdido é em vão. A perturbação em sua mente exige esquecimento do passado e um novo desejo de futuro. Mas o passado não pode ser esquecido e o que perdura na memória é justamente aquilo que faz do presente algo inteligível.

A busca por uma nova vida fora da Palestina é ajustada não só pelo exílio, mas, também, pela nova posição social imposta por uma estrutura em transformação. É interessante notar que a “fortuna” que Saad afirma que nunca cairá do teto de Abu-Qays (Ibidem: 54), ainda que viesse, não deveria ser uma solução, conforme o que acreditava o autor, já que ela não traria mudanças estruturais e se configuraria como resposta paliativa. Saad representa o papel daquele que desistiu de sua identidade palestina, cujos interesses estão pautados em um mundo que o escritor palestino combateu.

A experiência anterior à Nakba, contudo, sugere uma vida condicionada ao trabalho familiar e de subsistência, uma sequência de acontecimentos com ritmo lento, em que a passagem do tempo se organizava conforme surgiam as necessidades. O novo ritmo, imposto pela modernidade ocidental – e presente na região do Golfo Pérsico, que em meados do século XX ganha importância econômica para o Ocidente por causa do petróleo (Hourani, 2006: 494) – parece ditar as necessidades antes de elas se tornarem iminentes. Assim, a grande oferta de trabalho para palestinos no Kuwait em troca de dinheiro era fundamental para permanecer existindo e sustentando aquela parte da família que se manteve à margem dessa estrutura, nos campos de refugiados e em movimentos de deslocamento dentro ou fora do território ou em outras regiões.

Essa falta de uma resistência atuante nos anos após a Nakba é resultado, também, da existência de um vácuo de representação política (Masalha, 2012: 140). Com o surgimento da OLP nos anos 1960, a liderança e atuação política ganham um novo fôlego. No entanto, antes disso, esse período ficou conhecido como “anos perdidos”, um momento em que os palestinos estiveram desaparecidos do mapa político como um ator independente ou mesmo como um povo (Khalidi, 2010: 178). A condição de exílio potencializara, assim, as angústias sobre os projetos de continuidade e ruptura da vida familiar palestina. Ghassan Kanafani a partir da exposição das memórias e vida dos seus protagonistas de Homens ao Sol sugere uma proposta narrativa para os palestinos: resistir ao exílio.

 

Literatura de resistência e luta por outra narrativa histórica da palestina

 

A leitura do desfecho da narrativa é dramática. O destino dos três exilados é acompanhado de angústias nas páginas finais. Após terem passado com sucesso pelo primeiro posto de controle, suportando o abafado tanque do caminhão que reproduz os espelhos de uma estufa, o último controle de fronteiras deveria ser ultrapassado em um total de sete minutos, segundo o cálculo feito pelo motorista, para que os exilados suportassem a permanência naquele espaço sufocante.

Abul-Khayzuran estaciona seu caminhão em frente da entrada do local onde os oficiais trabalham e como um motivo para romper o tédio, os policiais de fronteira prologam a humilhação e a exposição da vida íntima do motorista, mas ele, com pressa, tenta ignorar seus próprios sentimentos, lembrando que a prioridade do momento é outra, retirar os exilados do tanque o quanto antes. Ao se livrar dos oficiais e retornar para o caminhão: “Olhou para o tanque por um momento e teve a impressão de que o metal estava prestes a se fundir sob aquele Sol terrível. (…) ele tinha um minuto ou um minuto e meio até que pudesse contornar a primeira curva, a esconder-se do posto fronteiriço. (…) Não havia nada em sua cabeça a não ser pavor, e ele imaginou que iria cair sobre seu volante desmaiado”. (Kanafani, 2012: 122).

 

Sua constatação misturaria terror e desgaste. O tempo dentro do tanque havia sido maior do que deveria. Os exilados não puderam resistir ao terrível calor. Os três foram levados ao completo sufocamento. Abul-Khayzuran não sabia se estava mais abatido pelo cansaço ou pela morte dos homens, que a partir de agora, deixavam de ser homens e se tornavam corpos, cujas vidas acabavam de ser, pela última vez, interrompidas. No escuro, mas sob o Sol, em uma ironia intencional. Douglas Magrath comentou essa passagem: “Luz em chamas representa desastre, porém, ironicamente, os três fugitivos nunca veem a ardente luz do sol cujo calor os mata. Eles permanecem na escuridão – tanto literal quanto simbolicamente” (Magrath, 1979: 102). A ideia, assim, é de que o esclarecimento, representado pelo Sol, não os matou, mas sim a escuridão, a ignorância, a falta de conscientização política e identitária.

Assim, ao encerrar a narrativa, as indagações permanecem. O motorista tenta entender insistentemente o que ocorrera: “Por que vocês não bateram nos lados do tanque? Por que vocês não golpearam as paredes do tanque? Por quê? Por quê? Por quê?” (Ibidem: 130).

Com esse desfecho, Ghassan Kanafani revelou o que acreditava ser sua luta contra a resignação propiciada pelo exílio. A produção do seu primeiro romance, Homens ao Sol, demostra o vigor e a crença na luta pela independência nacional palestina. Diante das tentativas de ofuscamento da memória e da história, a produção de um texto literário que reafirma a existência de uma população em condição de exílio, é um atestado de que há outra narrativa para ser conhecida e, além disso, demonstra um comprometimento com os seus pares, convidando-os a resistir às formas hegemônicas de se contar e construir a história.

Para Ghassan Kanafani, a inércia e a busca incerta por explicação sobre o que ocorrera em 1948, bem como a falsa crença na reação de países árabes vizinhos, levaram ao enfraquecimento do movimento palestino em sua luta por independência nacional. Isso precisaria ser superado e compreendido, para não perder de vista a luta em defesa da Palestina.

Para Kanafani, se os palestinos tivessem estimulado a conscientização política, talvez houvesse uma resistência mais preparada para lidar com os inimigos externos e, eventualmente, fosse menos necessária a persistente defesa por uma identidade coletiva. A análise de Muhammad Siddiq ao interpretar o conteúdo de Homens ao Sol complementa essa perspectiva, pois o “movimento de afastamento da Palestina invariavelmente leva à morte real ou simbólica da(s) personagem(s). Em contraste, o movimento em direção à Palestina, seja real (físico) ou simbólico (espiritual), inevitavelmente direciona ao resgate de si, à reiteração da vontade e à revitalização e reafirmação da identidade” (Siddiq, 1984: 7-8).

A narrativa de Kanafani estimula, portanto, o caminho para qualquer palestino em dúvida sobre o seu próprio exílio: não fugir. Edward Said reconheceu a crítica de Kanafani com o desfecho de Homens ao Sol: “Quando finalmente os homens se movem de seu deserto espiritual para o presente, rumo ao futuro, eles escolhem com relutância, porém necessariamente: eles vão morrer – invisíveis, anônimos, sob o sol, no mesmo presente que os tirou de seus passados e zomba deles por seu desamparo e sua inatividade” (Said, 2012: 175).

Homens ao Sol caracteriza-se como parte de uma obra que relaciona exílio e resistência. Ao mesmo tempo que o seu conteúdo é o exílio e seu autor um exilado, o romance pertence a um movimento cultural que estava transformando lamentos e tristezas em esperança, coragem e força. Com isso, a aceitação do exílio deveria se transformar em formas de resistência. A partir disso, que Kanafani inseria a sua produção literária nesse novo movimento emergente a partir da década de 1960. O desenvolvimento do exílio como tema é apresentado como um convite para refletir sobre outras relações a ele vinculadas.

A crítica de literatura Barbara Harlow, autora de Literatura de Resistencia (1993), lembrou que, segundo Kanafani, a literatura é um campo de batalha (Harlow, 1993: 28). Seus escritos sugerem o prisma pelo qual o autor observou a sua realidade. Harlow insistiu na preocupação de Kanafani com a construção de uma consciência histórica da Palestina em todas as suas atividades produtivas, assim as escolhas e os caminhos percorridos por Abu-Qays, Assaad e Marwan não podem ser lidos sem diálogos com o seu contexto. Em uma reflexão madura, Harlow e Riley consideraram que “Obras de literatura, contos e romances são, então, convidados para participar do processo historiográfico. O imediatismo político e a historicidade dessas narrativas são, contudo, tão parte de um projeto literário como o é a literatura utilizada por uma dada visão histórica” (Riley & Harlow, 2000, 17).

O que essas autoras observaram é que se concentrou em Kanafani não apenas um importante escritor da literatura palestina mas, também, o mártir de sua nação, pois diante de impedimentos pessoais e políticos que vivenciou, ele lutou e estimulou a reflexão sobre ser palestino e seu significado histórico.

 

Considerações finais

 

A narrativa de Homens ao Sol, desenvolvida conforme a necessidade de assinalar aspectos e sentidos de uma história que foi sendo suprimida desde 1948, é parte de uma proposta de Kanafani para não apenas registrar a história mas, também, reagir diante dela. Em face das diversas tentativas de se privilegiar a narrativa sionista, a população não-judia que permaneceu ou que, em algum momento, pertenceu àquele território, teve sua experiência preterida frete ao poder estabelecido com a criação de um novo Estado-nação.

Os exilados Abu-Qays, Assaad e Marwan, bem como o abscindido Abul-Khayzuran potencializaram o significado do que é uma vida interrompida e, no limite, uma história intermitente. Ao não conseguirem decifrar o próprio tempo presente, foram incapazes de encontrar um futuro. Kanafani reivindicou uma postura diante da injustiça sofrida com a Nakba, porque tinha consciência de que a infinita espera por transformação de suas vidas era um caminho sem qualquer destino. A questão “Ainda há caminhos neste mundo?” feita por Assaad é respondida pelo autor com sua proposta de uma reescrita da história: o caminho só existe a partir da crítica, a inércia diante da realidade resulta em supressão.

 

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*Licenciada em História (UNIFESP), Mestra em História Social (USP) e Professora do Ensino Público Municipal em São Paulo. É coordenadora na ONG Rede Educacional pelos Direitos Humanos em Palestina/Israel (FFIPP-Brasil).