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Luciana Garcia de Oliveira [1]

Resumo

Os palestinos exilados no Egito desde 1948 tiveram um tratamento diferenciado, quando comparado ao tratamento dispensado em outros estados árabes. O Egito pode ser considerado a única nação árabe que ofereceu um estado de bem estar social aos palestinos deslocados desde a Nakba. Entretanto esta situação não foi permanente. Este artigo pretende analisar as oscilações políticas no Egito e na Palestina que refletiram no grau de apoio à causa palestina no Egito até os dias atuais.

Palavras-chaves: exílio; palestinos; Egito e causa palestina.

 

Abstract

The exiled Palestinians in Egypt since 1948 had a special treatment compared to the treatment in other Arab states. Egypt can be considered the only Arab nation that offered a social welfare state to the Palestinians displaced since Nakba. However, this situation was not permanent. This article aims to analyze the political swings in Egypt and in Palestine that reflected the degree of support of the Palestinian cause in Egypt to this day.

Key-words: exile; Palestinians; Egypt and the Palestinian cause. 

 

A era de ouro

O Egito assim como as demais nações árabes mantiveram, ao longo da sua história, uma conexão com os palestinos e com a causa palestina, porém a incondicionalidade com a causa palestina passou e ainda vem passando por inúmeros reverses. O entusiasmo, o ressentimento e a indiferença tornam-se intrinsecamente relacionados com os ciclos de violência na Palestina e ao comportamento dos palestinos dentro da esfera egípcia. De um modo geral existem muitas razões para que a sociedade egípcia apoie majoritariamente a causa palestina, uma delas é o discurso praticamente unânime no Egito e no mundo árabe em repúdio à ocupação da Palestina promovida pelo governo de Israel.

Os anos posteriores a Nakbah (catástrofe) palestina foram marcados pela ascensão do nacionalismo árabe, que considerava que somente através da união dos povos árabes seria possível libertar toda a Palestina ocupada. O presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, porta-voz do movimento nacionalista árabe, inseriu a questão da Palestina com prioridade na agenda pan-arabista. O partido político Al-Fatah, embora tenha sido fundado momentos antes no Kuwait, foi no Egito que as suas lideranças tiveram acesso aos espaços disponíveis para uma completa e extensa formação política de organização e mobilização. Até meados da década de 1970, a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) mantinha presença bastante ostensiva no Egito, seus membros estavam envolvidos em muitos sindicatos, clínicas médicas, escritórios e departamentos públicos. Todo o suporte político e financeiro cedido através de doações de países exportadores de petróleo, existiu até o início da década de 1990, a crise do Golfo acabou por diminuir o financiamento das instituições e organizações palestinas do Egito.

“Era de Ouro” foi a expressão escolhida para descrever um período da história, guardado na memória afetiva da diáspora palestina do Egito. Foi durante os anos Nasser que os palestinos tiveram inúmeras oportunidades de desfrutarem de uma série de subsídios em um Estado de bem estar social. Em meados da década de 1950, as mais importantes universidades do Egito atraíam centenas de milhares de estudantes palestinos interessados, em grande medida, pelos cursos tradicionais de Medicina e Engenharia. Dentro dos campi, os palestinos tiveram a liberdade de fundarem muitos movimentos de solidariedade à causa palestina. Foi nessa ocasião, inclusive, que o governo egípcio facilitou e subsidiou a formação, treinamento e o fortalecimento da Al-Fatah.  De acordo com a pesquisadora do Centro de Estudos Palestinos, Oroub El-Abed, em 1959 o Ministério das Relações Exteriores solicitou ao ministério de assuntos sociais para que tornassem as ofertas de empregos acessíveis aos palestinos no Cairo e nas demais grandes cidades do Egito, sobretudo no que se referia aos cargos nos setores públicos.

“Artigo 1 – Como exceção à Sessão 1 do artigo 6 (Lei 210 de 1951), relativo aos trabalhadores do setor público, é permitido aos palestinos trabalharem em cargos dos setores públicos e do governo e de serem nacionais da República Árabe Unida” (El-Abed, 2009: 43).

Os palestinos que chegavam da Faixa de Gaza tinham direito à licença para abrirem seus próprios negócios. Muitos palestinos exilados no Egito marcaram presença no terceiro setor, no comércio e na prestação de serviços de diversas naturezas. Durante esse período, conhecido como a “Era de Ouro”, a legislação egípcia havia sido “emendada” de modo que a palavra “estrangeiro” não fosse mais designada aos palestinos, em questões de caráter administrativos. Ainda, do mesmo modo dispensado aos cidadãos egípcios, a comunidade palestina estava autorizada à se deslocar em viagens internacionais e à realizar transações de compra e venda de terras. O presidente Nasser inseriu um adendo importante na legislação, justamente na parte que se referia à aquisição de terras por “estrangeiros”. De acordo com Nasser, os palestinos deveriam deter um tratamento especial “até que os territórios palestinos sejam liberados dos ocupantes e os palestinos retornem à sua pátria” (El-Abed, 2009:45).

Nasser é considerado um dos líderes árabes que mais se comprometeram com a causa palestina desde a Nakbah. Entretanto as suas críticas às ações israelenses nunca eram estendidas ao povo judeu. Seus discursos públicos oficiais eram direcionados aos britânicos, em primeiro lugar. Era atribuído aos ingleses à culpa pelos grandes prejuízos no mundo árabe e da mesma forma, pelo desencadeamento da questão da Palestina. De acordo com o discurso proferido no dia 13 de dezembro de 1953:

“Quem exortou os judeus e encorajou-os a ocupar a Palestina e derrotar os povos árabes? Foi a Inglaterra, que era o problema e a calamidade principal. Esquecemos isso, e dissemos “os judeus”; mas quando estávamos lutando na Palestina, a Inglaterra nos impediu de receber armas, ao passo que os judeus receberam armas de todos os cantos … Os líderes árabes esqueceram a causa primária para o derrota, a Inglaterra, e dizem que foi Israel e os judeus. Eles têm medo de dizer que foi a Inglaterra” (ACHCAR, 2010: 52)

Mesmo após uma sangrenta operação em Gaza em 28 de fevereiro de 1955 e principalmente após o ataque em retaliação à nacionalização do Canal de Suez em 1956, as lideranças egípcias atribuíam à culpa ao Imperialismo e às monarquias árabes reacionárias que mantinham acordos com certas potências dominantes como a Inglaterra e os Estados Unidos. Nasser reafirmava suas críticas à Israel com base nos princípios democráticos, mencionava acerca da discriminação religiosa na proclamação de um Estado sionista. É destacado na obra do professor de Relações Internacionais da Universidade de Londres, Gilbert Achcar, que meses antes de falecer, em 23 de julho de 1970, durante um evento em comemoração do 18º Aniversário da Revolução do Egito, Gamal Abdel Nasser ponderou que,

“Em Israel, existem manifestações em Tel Aviv e em Jerusalém ocupada, em Israel há hoje jovens que percebem o racismo e o fanatismo de seus líderes, destinados a introduzir um estado de guerra permanente; em Israel, há pessoas que colocam nenhuma fé nos tipos de conversas de que os árabes querem cortar as gargantas dos judeus e jogá-los no mar, porque eles se lembram de que os judeus viveram ao lado de nós há milhares de anos aqui sem nunca terem sofrido massacres e perseguições; eles sabem que a razão para a situação difícil em que nos encontramos hoje é o fato de que Israel invadiu a Palestina, expulsou os povos árabes palestinos de suas terras, negou os direitos do povo da Palestina, e decidiu promulgar uma política de força bruta destinado a aterrorizar o povo árabe, matando mulheres e crianças”. (Achcar, 2010: 201).

A militância em torno da causa palestina, a sensação de acolhimento e o contexto de prosperidade entre a comunidade palestina do Egito não foram permanentes e acabaram por perder espaço e apoio institucional progressivamente com a morte de Nasser, no dia 28 de setembro de 1970, logo após o presidente do Egito ter mediado os acordos entre o líder palestino Yasser Arafat e o rei Hussein, em função da tragédia conhecida historicamente como “Setembro Negro”, durante o contexto de guerra civil na Jordânia[2]. Gamal Abdel Nasser foi sucedido pelo seu vice-presidente Anwar Sadat, que aparentemente teria disposições em dar continuidade às ações políticas e aos projetos de seu percussor, principalmente com relação aos benefícios dispensados aos palestinos da região.

Porém, em outubro de 1973, Síria e Egito promoveram um ataque surpresa contra Israel. A ação militar teria como objetivo primordial a recuperação de alguns territórios ocupados após a guerra de junho de 1967, a Península do Sinai e as Colinas de Golan. Por outra parte, o exército egípcio não esperava uma forte reviravolta da reação israelense na guerra, a qual à essa altura, já contava com ajuda incondicional dos Estados Unidos. A derrota de 1973 teve como resultados uma atmosfera de muita angústia e fracasso por parte dos exércitos e das sociedades árabes e a reaproximação do Egito de Sadat com os Estados Unidos através de dois acordos com o então inimigo, Israel, em 1974 e 1975.

O clima de frustração no Egito foi decisivo para o distanciamento progressivo da causa Palestina, o slogan “Egito primeiro” trouxe consigo uma série de referências na imprensa que afirmavam o quanto o Egito e os demais países árabes envolvidos na guerra contra Israel haviam se sacrificado em benefício do bem-estar palestino e o modo como os palestinos haviam respondido com muita ingratidão, transformando os Estados de acolhimento em um campo de batalha de interesses eminentemente da OLP. Uma campanha anti-Palestina havia sido iniciada no Egito. O clímax da crise entre egípcios e palestinos, segundo El-Abed, ocorreu momentos após o assassinato do ministro da cultura do Egito, Yusif al-Siba‘i , em Nicósia, Cyprus, no dia 01 de fevereiro de 1978. O crime havia sido cometido pela facção palestina de Abu Nidal[3]. A morte de Yusif al Siba‘i decretou uma campanha contra os palestinos no Egito, de um modo geral, os palestinos, foram considerados os culpados pelo assassinato de al Siba‘i.

“Após o assassinato de al-Siba’i, os egípcios consideravam os palestinos como judeus [em alusão ao poder econômico palestino percebido], embora nós somos árabes como eles. Um dia, a janela da frente da minha loja foi quebrada. Claro, era um egípcio que fez isso. Por quê? O que eu fiz para eles? Só porque eu sou palestino, como aqueles que mataram al Siba’i?” (El-Abed, 2009: 47).

Nessa ocasião era muito comum ouvir os egípcios repetirem clichés sobre a culpa palestina pelo seu próprio exílio, pois segundo o senso comum, os palestinos haviam “vendido suas próprias terras para os sionistas”. Outros culpavam os palestinos pela piora da economia egípcia, uma vez que era notória e ostensiva a presença de muitas empresas e grandes lojas de propriedade palestina dentro dos espaços de comércio localizadas nas grandes cidades do Egito. Oroub El-Abed, em sua obra Unprotected – Palestinians in Egypt since 1948 aponta uma série de matérias jornalísticas publicadas no Egyptian Weekly Magazine que divulgavam dados e números superestimados no intuito de “comprovar” o quanto o terceiro setor egípcio estava tomado por “estrangeiros”, enquanto a sociedade egípcia sofria com a pobreza crescente, com a miséria e com a falta de empregos no país. A atribuição da culpa palestina pelos males egípcios em larga escala contribuiu para que as medidas governamentais que tratavam os palestinos como nacionais fossem revogadas. Os direitos conquistados durante a era Nasser estavam, de fato, ameaçados.

A relações entre egípcios e palestinos tornaram-se mais frias e distantes, ao mesmo tempo que houve um considerável crescimento das relações entre o Egito e Israel. Em setembro de 1978, os acordos de Camp David selaram a paz entre os governos egípcio e israelense. O mal-estar entre o governo egípcio e os palestinos continuou até outubro de 1981, no momento em que Anwar Sadat foi assassinado por integrantes de uma organização fundamentalista egípcia al-Gamiat al-Islamiyya. As motivações para o atentado eram diversas, entretanto destacava-se o descontentamento com os acordos de paz com Israel entre as esferas mais radicais da sociedade egípcia.

Sadat foi sucedido por Hosni Mubarak, a qual permaneceu no poder durante algumas décadas. Durante os primeiros anos do mandato presidencial, Mubarak continuou com as mesmas posturas adotadas por Sadat: pressionava para que os estudantes palestinos tivessem um acesso mais limitado à educação e ao emprego formal no país.

O tratamento excludente aos palestinos perdurou até o momento em que o mundo árabe foi surpreendido pelas notícias que reportavam os massacres de Sabra e Chatila durante o contexto da invasão israelense no Líbano em 1982. Foi à partir do massacre dos refugiados palestinos que as relações entre o governo egípcio e a OLP voltou a melhorar, até tornarem-se completamente restauradas em 1983.

A simpatia pela causa palestina coincidia com os ciclos de violência nos territórios ocupados e nos campos de refugiados no mundo árabe. Foi assim após os massacres nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila no Líbano em 1982 e durante a eclosão da Primeira Intifada em 1987, nos territórios palestinos ocupados. A cada escalada de violência na Faixa de Gaza e na Cisjordânia cresciam as manifestações pró-Palestinas nos grandes centros egípcios.

Por outra parte, durante a invasão do Kuwait, pelas forças iraquianas, em agosto de 1990, no contexto da primeira guerra do Golfo, a participação do Egito na composição da coalisão norte-americana contra o Iraque provocaram sérios conflitos internos. O apoio oficial da OLP ao líder iraquiano Sadam Hussein e as calorosas manifestações em solidariedade ao Iraque dentro dos territórios palestinos impulsionaram a deflagração de uma nova temporada de propagandas negativas e muita perseguição aos palestinos no Egito. Durante o calor dos confrontos contra os palestinos, o jornalista Ibrahim Saada escreveu uma carta endereçada ao presidente Hosni Mubarak:

“Eu não peço para que os palestinos no Egito sejam deportados, mas peço-lhe para evitar a permissão de entrada de mais palestinos. Nós já temos centenas de milhares deles em um país que sofre de superpopulação. Peço-lhe para parar com esta penetração palestina nos negócios da nossa economia e para acabar com o monopólio declarado e oculto sobre o comércio de bens de consumo em nosso país”. (El-Abed, 2009: 51).

Muitos jornais e reportagens na televisão do Egito divulgavam matérias sobre palestinos detidos nos aeroportos do Egito e do Sudão, além de estudantes impedidos de regressarem ao Egito após concluírem estudos com bolsa no exterior. As ações de perseguição e discriminação contra os palestinos no Egito predominaram até a eclosão da Intifada al-Aqsa, em 2000, quando novas manifestações de solidariedade à causa Palestina retornaram às ruas do Cairo e de Alexandria. Os protestos massivos em favor da causa palestina e a presença de milhares de residentes palestinos no Egito não foram capazes de assegurar a estabilidade e a cidadania sob o pretexto de apoio egípcio concernente ao direito de retorno palestino, de acordo com a Resolução 194 da Organização das Nações Unidas (ONU) e na observância da preservação da identidade palestina.

Os palestinos no Egito passaram a viver em uma situação de dualidade: Enquanto muitos eram perfeitamente assimilados à sociedade egípcia, outros ainda viviam em uma realidade diversa e separada do Estado. Se por um lado e durante muitos anos os palestinos desfrutaram de uma série de ações afirmativas, foi após alguns episódios de violência no Egito, como o assassinato do ministro da cultura e os desacordos gerados durante a guerra do Golfo, que os palestinos se afastaram da sociedade egípcia, movidos, acima de tudo, pelo medo das perseguições e da insegurança. O clima de receio e pavor contribuíram para que muitos palestinos abandonassem o idioma árabe-palestino, passando a se comunicarem através do árabe sob um assento egípcio. Dentro dessa realidade, muitos palestinos passaram a evitar de se expressarem em voz alta nos espaços públicos e de se reafirmarem como palestinos para pessoas desconhecidas.

A medida em que o Egito passou a receber novos refugiados palestinos em decorrência da guerra de junho de 1967 e da Primeira Intifada, em 1987, o cenário egípcio tornou-se ainda mais contrastante. Ao abrir espaço para o refúgio de palestinos que até então viviam sob um ambiente de intensa politização, o Egito transformou-se em um espaço em que os nacionalistas palestinos passaram a ter que conviver com milhares de palestinos perfeitamente assimilados à sociedade egípcia. No Egito, muitos palestinos exilados desde a década de 1940 se comportavam de forma indiferente ao conflito Israel-Palestina.

 

O Hamas

 Conforme havia sido exposto, entre as décadas de 1950 e 1960, os árabes e palestinos influenciados, durante décadas, pelas ideologias nacionalistas deixaram as tendências islâmicas renegadas à margem dentro dos movimentos de resistência contra Israel. Contudo, os ataques devastadores contra o Egito, Síria e Jordânia em 1967 provocaram um retrocesso gradual do pan-arabismo e, em contrapartida, insuflou a ascensão dos movimentos islâmicos, sobretudo após a Revolução iraniana no final da década de 1970 e após da derrota da OLP no Líbano em 1982. O movimento nacional palestino sob os auspícios do Al Fatah iniciou o seu declínio à partir da década de 1980.

O Hamas é considerado uma versão palestina do grande movimento da Irmandade Muçulmana do Egito[4]. Vale a pena ressaltar que a Irmandade Muçulmana é um movimento extremamente organizado e muito atuante em diversos Estados do Oriente Médio e Norte da África. Muitos militantes da Irmandade Muçulmana ocupam cargos públicos e compõem o parlamento dos governos da Jordânia, Kwait, Iêmen, Sudão, Argélia e Bahrein. Até meados da década de 1980, estavam também presentes nos movimentos de oposição aos governos da Líbia, Tunísia, Síria e Egito. O movimento islâmico Hamas representa uma mudança interna da Irmandade Muçulmana palestina ocorrida no final dos anos de 1980, no entanto suas perspectivas foram projetadas em conformidade com as principais diretrizes da sua matriz organizacional, a Irmandade Muçulmana do Egito. Um dos pensamentos coincidentes com o Hamas referia-se à islamização da sociedade.

No Egito, o regime de Hosni Mubarak, na tentativa de reafirma-se como um bastião ocidental do Oriente Médio, reprimia incansavelmente as liberdades individuais da sociedade civil egípcia. Em diversas ocasiões fechou jornais, sindicatos profissionais além de ter sido alvo de uma infinidade de denúncias sobre a manutenção de cerca de dezenas de ativistas de direitos humanos nos presídios em caráter de prisão administrativa. Entretanto, entre todas as medidas autoritárias, chama a atenção o peso da campanha militar dispensada contra os militantes islamistas do país. Durante a vigência do regime Mubarak tentou-se ao máximo impedir que os militantes da Irmandade Muçulmana se organizassem em partidos políticos. Nesta ocasião foi estimado que cerca de 54 militantes muçulmanos estavam sendo mantidos nos cárceres do Egito e no ano de 1995 outros milhares de islamistas foram presos, sem a devida acusação formal. Foi decretado “Estado de Emergência” no Egito contra uma suposta “ameaça islamista”.

Após os atentados em Nova York no dia 11 de setembro de 2001, o governo norte-americano reforçou a ajuda financeira que já existia no Egito, em função da política de contenção aos militantes islâmicos do país. A “Guerra contra o Terror” concedeu legitimidade para o uso desenfreado de prisões extrajudiciais militares contra alvos islâmicos com a aprovação do então secretário de estado norte-americano Colin Powell. O aumento das políticas truculentas contra os Irmãos Muçulmanos, com o passar dos anos, reforçou na melhoria e no fortalecimento da organização e da militância da Irmandade Muçulmana em alguns espaços públicos do Egito, notadamente nas regiões mais carentes das grandes cidades e sobretudo dentro dos sindicatos profissionais. Em meados de 1982 em diante, de acordo com o professor da Universidade do Texas, Jason Brownlee, os membros da Irmandade egípcia já controlavam os 5 sindicatos considerados mais importantes sob o ponto de vista político: dos médicos, dos engenheiros, dos farmacêuticos, dos cientistas e dos advogados. Além de muitos outros sindicatos fora da cidade do Cairo.

“Os médicos foram os primeiros a testemunharem a ascensão dos Irmãos Muçulmanos em seu sindicato. Em 1984, os Irmãos Muçulmanos conseguiram vencer sete dos 25 assentos do conselho do sindicato dos médicos, e em 1992 eles ganharam a maioria dos assentos nos sindicatos afiliados do Cairo, Alexandria, Giza e Daqahiyya. Em 1987, a Irmandade Muçulmana ganhou 54 dos 61 assentos na assembleia-geral do sindicato dos engenheiros e todos os assentos nas eleições do conselho do sindicato realizado em 1988” (Brownlee, 2002: 552).

 

Quanto mais o governo impedia a presença da Irmandade Muçulmana nas esferas políticas, na formação de novos partidos políticos e dentro do parlamento, maior era a influência islâmica dentro dos sindicatos e dentro dos seguimentos mais empobrecidos da sociedade egípcia nas periferias do país. A essa altura, já era possível deparar-se com uma série de organizações e instituições amparadas pelos Irmãos Muçulmanos nos bairros mais carentes do Egito. Também foi na década de 1980 que emergiu uma nova geração de militantes da Irmandade egípcia dentro dos Centros Acadêmicos das grandes Universidades do país, sobretudo nas Universidades do Cairo, Alexandria e ‘Ayn Shams. Após o assassinato do presidente Anwar al-Sadat, a juventude da Irmandade Muçulmana teve acesso à um programa de treinamento político a fim de se qualificarem para ocuparem os cargos públicos do país.

Muito embora a Irmandade Muçulmana acusasse o governo oficial de corrupção, perseguição e de violação aos direitos humanos de seus membros, ironicamente estava sendo constatado inúmeras medidas truculentas dentro das esferas administrativas dos sindicatos sob sua influência. Durante a década de 1990 havia muitas denúncias de censura aos resultados das eleições internas dos sindicatos profissionais afim de evitar o risco de perda de poder, influência e representatividade. Ainda, os meios de comunicação do país frequentemente reportavam sobre as perseguições aos afiliados cristãos.

“A mídia informou que durante as eleições do conselho do sindicato dos médicos em 1990, que os Irmãos Muçulmanos tinham tentado impedir médicos cristãos de votarem. Eles haviam feito diretamente pela não emissão de cartões de eleitor para os cristãos, e indiretamente pela realização das eleições na sexta-feira santa. Nas eleições do conselho do sindicato dos médicos afiliado ao governo de Daqahliyya em 1992, a imprensa relatou que os nomes de alguns médicos cristãos tinham sido retirados das listas de eleitores pelos Irmãos Muçulmanos. O mesmo foi relatado nas eleições do conselho do sindicato dos engenheiros de 1995, controlado pela Irmandade Muçulmana”. (Brownlee, 2002: 560)

Após a ocupação militar israelense na Cisjordânia e na Faixa de Gaza em 1967, a Irmandade Muçulmana egípcia em aliança aos grupos islâmicos palestinos começa a financiar escolas religiosas, associações de caridade e clubes sociais, de modo à pôr em pratica a noção de reestruturação islâmica da sociedade palestina e assim criar condições para libertar a Palestina da ocupação estrangeira ocidental. No entanto, apesar da presença de muitas associações, livrarias e instituições de capital islâmico, a aposta considerada mais efetiva em atrair um maior número de adeptos aos círculos islâmicos militantes foi a construção de mesquitas. De acordo com o professor da Universidade de Birzeit, Ziad Abu-Amr, “no período de 1967 até 1987, o número de mesquitas na Cisjordânia aumentou de 400 para 750, na Faixa de Gaza de 200 para 600” (Abu Amr, 1993). Normalmente as mesquitas financiadas pelos círculos islâmicos egípcios eram utilizadas para o recrutamento de novos seguidores, atraídos pelos sermões dos Sheiks da Irmandade Muçulmana.

Oficialmente, o Hamas passou a existir a partir do dia 14 de dezembro de 1987, por intermédio de um comunicado oficial dias após à eclosão da primeira Intifada. De acordo com o professor da Northwestern University no Qatar, Khaled Hroub “a decisão de criar o movimento de Resistência Islâmica (Hamas) foi tomada no dia seguinte à Intifada pelos líderes dos Irmãos Muçulmanos Palestinos, Sheik Ahmed Yassin, Abdul’Aziz al-Rantisi, Salah Shehadeh, Muhammad Sham’ah, Isa al-Nashar, ‘Abdul Fattah Dukhan e Ibrahim al-Yazuri. Os três primeiros foram assassinados por Israel anos depois”. (Hroub, 2008: 38)

De um modo geral, os islamistas palestinos tinham uma visão bastante particular sobre a Palestina e sobre a resistência frente à ocupação territorial. Na opinião do grupo Hamas, a solução do problema palestino passava pela destruição do Estado de Israel. O grupo se opôs frontalmente à algumas iniciativas de negociações de paz e frequentemente clamava às autoridades palestinas à boicotarem esses eventos, entre eles, o Acordo de Paz de Madrid de outubro de 1991. Nessa medida, o Hamas passou a rejeitar abertamente o programa político diplomático da OLP. De modo semelhante à Irmandade Muçulmana egípcia, o programa político estabelecido pelo Hamas na Palestina era extremamente distante da democracia e do pluralismo social e político, suas diretrizes evocavam primordialmente um sistema de doutrinação teocrática com bases ditatoriais.

Após as eleições de 2006, o discurso do Hamas passou a concentrar-se na resistência explícita à ocupação israelense. O discurso público minimizou a linguagem religiosa, suas lideranças passaram a adotar fundamentos legais com base no Direito Internacional ao evocarem a libertação da Palestina. A dualidade entre as posições nacionalistas e religiosas ajudaram a abafar práticas religiosas controversas impostas pelo grupo Hamas, como a notória imposição de códigos morais religiosos sobre a enorme população civil da Faixa de Gaza.

Muito embora o discurso do Hamas reafirmasse seu confronto tão somente contra Israel, durante o longo governo de Hosni Mubarak no Egito, houve muitas manifestações e protestos em frente ao portal de Rafah[5] em virtude ao contínuo fechamento da fronteira com a Faixa de Gaza. O impedimento da entrada de palestinos de Gaza ao Egito deixava milhares de palestinos à mercê das péssimas condições de vida em uma região superpovoada e alvo de frequentes ataques durante as operações israelenses, sobretudo durante a violenta operação Cast Lead, em 2008.

Mesmo assim, o presidente Hosni Mubarak insistia em mediar um acordo de paz entre a Palestina e Israel, recebeu inúmeras vezes dirigentes israelenses em Sharm el-Sheik que aparentemente não estariam interessados em fazer concessões para um acordo de paz profundo com a Autoridade palestina. O bloqueio de Gaza, apoiado pelas autoridades egípcias, da mesma forma, contribuiu para o fracasso das muitas tentativas de união nacional palestina entre o Hamas e o Al-Fatah.

 

A Primavera  

Durante a emergência do movimento conhecido como “Primavera Árabe” no Egito, as principais manifestações eram eminentemente políticas e sociais, acima de tudo seculares. Muitos manifestantes reivindicavam oportunidades de empregos, principalmente entre a juventude recém-formada nas universidades egípcias, e pelo fim da corrupção, clientelismo e em prol da causa palestina. De acordo com o jornalista Alain Gresh (2011: 6) do Le Monde Diplomatique “durante as manifestações na praça Tahrir, alguns manifestantes erguiam cartazes redigidos em hebraico, afirmando que essa era a única língua que Mubarak compreendia”. Logo no início das manifestações em massa não era possível ouvir expressões de cunho islâmico nos centros das grandes cidades e na praça Tahrir.

A queda de Hosni Mubarak abriu caminho para um regime militar de transição que prometia estabelecer eleições presidenciais o mais breve possível. O Conselho das Forças Armadas (SCAF) encarregou-se de tranquilizar os governos dos Estados Unidos e de Israel no que se referia aos compromissos internacionais, anteriormente firmados, como era o caso dos Acordos de Camp David (1978) e do Acordo de Paz entre Israel e o Egito (1979). Foi durante os meses que precederam as eleições parlamentares que a Irmandade Muçulmana valeu-se de sua longa experiência organizacional para uma considerável mobilização política, sobretudo nas regiões mais carentes e marginalizadas das grandes cidades do Egito. Nesse período de tempo os militantes da Irmandade realizaram campanhas políticas, fundaram partidos políticos e fortaleceram as organizações juvenis.

Os partidos políticos organizados pela juventude secular da praça Tahrir, o partido Al Adl, a Coalisão Juventude Revolucionário e o Movimento 6 de Abril, entre outros, não conseguiram reunir assinaturas suficientes do mínimo de proponentes para o registro oficial. Era notado que os jovens egípcios percussores nas manifestações de rua e nas redes sociais, educados nas Universidades da Europa e dos Estados Unidos não haviam desenvolvido uma linguagem popular capaz de se comunicarem com a população egípcia, principalmente entre os mais pobres e iletrados. Enquanto isso, os partidos já existentes realizavam amplas coalisões, como é o caso da coalisão Aliança Democrática, formada pelo partido Al-Wafd e o partido Liberdade e Justiça da Irmandade Muçulmana.

Nesse passo, o resultado das eleições parlamentares não poderia ter sido diferentes, de acordo com as fontes jornalistas oficiais, o Partido Liberdade e Justiça passou a ocupar cerca de 235 cadeiras das 498 vagas da nova câmara baixa egípcia. O partido fundamentalista Al Nur ficou na segunda posição com 121 cadeiras e o partido Al-Wafd na terceira colocação. O parlamento egípcio começava a vislumbrar o resultado para as eleições presidenciais que levariam o candidato do partido Liberdade e Justiça, Mohamed Morsi, à presidência do país. Além das esferas religiosas do Egito, as notícias da vitória do candidato da Irmandade Muçulmana havia sido saudada na Faixa de Gaza e entre as lideranças do grupo Hamas.

A primeira vista, Morsi entra em cena com um discurso sedutor, em nome do povo egípcio e em apoio à causa palestina, o representante da Irmandade Muçulmana marca presença na Assembleia Geral das Nações Unidas e defende a proclamação do Estado Palestino na ONU. O presidente recém eleito confirmou presença na reunião dos países não alinhados, em Teerã, Irã, onde teve a oportunidade de tecer críticas públicas ao governo sírio, representando pelo então presidente Bashar Al-Assad, reafirmou sua solidariedade aos que buscam liberdade e justiça na Síria em direção à uma transição pacífica rumo a democracia. No seu primeiro ano de mandato, Morsi decidiu fechar suas embaixadas em Damasco, numa clara demonstração de rompimento diplomático com a República Árabe da Síria.

Mais adiante, a aprovação de um modelo de constituição com um forte apelo islamista, qualificado como um projeto de Democracia Islamista, revoltou as esferas seculares do Egito. A constituição suspendeu temporariamente a autoridade do judiciário a fim de prevenir que uma oposição civil ao projeto bloqueasse o referendo. O Egito estava caminhando rumo à um Estado teocrático. De acordo com o cientista político Amr Hamzawy, citado em uma matéria do New York Times, não era possível subestimar o tamanho da oposição ao projeto constitucional e os favoráveis ao texto. “Nós temos uma maioria que não é grande, e uma minoria que não é pequena. Isto significa que há uma divisão evidente na sociedade” (Kirkpatrik e El Sheikh, 2012) [6]. Foi conflagrado um profundo sectarismo dentro da sociedade egípcia, os cristãos coptas os muçulmanos xiitas e as demais parcelas laicas da sociedade egípcia passaram a se sentirem marginalizadas nas esferas da cidadania. O presidente Mohamed Morsi substituiu e nomeou autoridades municipais e estaduais de forma a aumentar o poderio da Irmandade Muçulmana dentro do governo do Egito. A inabilidade do presidente Morsi em pôr em prática uma política de consenso tornou-se cada vez mais evidente.

Diante de tantas ações antidemocráticas, a população voltou as ruas exigindo a deportação do presidente Mohamed Morsi. Alguns grupos da sociedade civil pediam a intervenção militar contra o que estava sendo considerado como uma Ditadura Islamista. Contudo, a maneira como a transição foi realizada foi considerada por muitos ativistas e observadores internacionais como extremamente delicada e preocupante. De acordo com o site Crisis Group, a declaração de guerra contra os Irmãos Muçulmanos juntamente com a privação de seus direitos políticos e as restrições sobre os meios de comunicação e afins, fortaleceria “os grupos islamistas subterrâneos, dando origem a uma geração de muçulmanos radicalizados no Egito e ao seu redor que terão a fé perdida nas mudanças democráticas pacíficas” (Crisis Group, 2013).

O que estava sendo testemunhado nas ruas egípcias era a emergência de uma situação volátil à ataques terroristas contra alvos militares, prédios públicos e contra templos cristãos. Algumas testemunhas vinham a público denunciarem os islamistas, entre eles, muitos homens do Hamas (Kirkpatrik, 2013). A população e a opinião pública egípcia voltavam a transmitir uma crescente rejeição à causa palestina.

O próximo presidente eleito, o General Abdel Fatah el-Sissi, de modo contundente pôde traduzir o clamor social em rejeição aos setores islamistas no Egito, o que também incluiria os refugiados palestinos da Síria. As novas autoridades inseriram o Hamas na composição da “lista negra” do governo egípcio, sob a acusação de que o grupo islamista palestino havia deflagrado ataques ao Egito desde os confrontos nas ruas, após a deposição do ex-presidente Mohamed Morsi.

 

E o Outono…

 

O Egito é o refúgio de sírios e palestinos, que constantemente fogem dos conflitos na Síria. Contudo, houve uma mudança radical nas políticas de acolhimento aos refugiados, ao compararmos com as políticas de recepção do passado. Muitos refugiados palestinos da Síria tem sido detidos em centros administrativos ao desembarcarem no Egito, outros são deportados de volta à Síria ainda em guerra. Segundo estudos promovidos pelo BADIL Resource Center for Palestinian Residency and Refugee Rigths e publicado na edição especial Palestinian Refugees from Syria and Egypt da revista Al-Majdal, é notado que, cada vez mais, os palestinos tem sido tratados como criminosos e indesejáveis:

“Essa transformação foi confirmada quando um oficial do Ministério do Interior disse ao jornal estatal Al-Ahram no início de fevereiro que os refugiados detidos em Alexandria eram “infiltrados” e não “refugiados oficiais”. Depois, que o Centro de Juventude Anfoushy foi fechado, o grupo foi separado e distribuído entre duas instalações diferentes. As condições dentro de ambas as instalações eram piores do que em Anfoushy, mas também indicativa da inconsistência das instalações do centro de detenção de imigrantes de Alexandria” (Rollins, 2015: 25).

Diante da insalubridades dos centros de imigração, no dia 9 de fevereiro de 2015 havia sido detectado ao menos 50 refugiados do centro de Karmouz em greve de fome. Muitas denúncias apontaram que as autoridades egípcias se recusavam a declarar o status de refugiado à muitos palestinos que já se encontram no Egito e que essas mesmas autoridades não estavam permitindo à entrada de palestinos no país desde o ano de 2013, quando o ex-presidente Mohamed Morsi foi deposto pelas forças militares do Egito. Autoridades egípcias justificam as detenções e deportações por razões de segurança e muitos ainda insistiam na ideia de preservação do direito de retorno palestino.

A negação de concessão de status de refugiados aos palestinos no Egito, decretou uma situação bastante arriscada. Muitos refugiados palestinos passaram a ser explorados financeiramente por muitos agenciadores localizados no Mediterrâneo, além de muitos se arriscarem em viajar em embarcações precárias e acima da capacidade de lotação máxima.

A realidade dos palestinos no Egito, desde a deposição do ex-presidente Mohamed Morsi, têm sido permeada por uma crescente cultura de xenofobia entre muitas esferas da sociedade civil egípcia. Muitas emissoras televisivas no Egito divulgavam retóricas com um alta carga discriminatória ao retratarem os sírios e os palestinos como apoiadores incondicionais do antigo regime e da Irmandade Muçulmana.

“Em 17 de setembro de 2013, as autoridades egípcias abriram fogo contra um barco que transportava cerca de 200 sírios e palestinos refugiados da Síria matando dois e ferindo outros dois. Os relatórios mostram que as autoridades egípcias cercaram o barco momentos depois de deixar a costa e começou a disparar tiros para o casco, onde os refugiados encontravam-se sob lotação máxima. O barco superlotado que transportava dezenas de refugiados da Síria se dirigia para a ilha italiana de Lampedusa, onde afundou em 11 de outubro de 2013, matando 12 pessoas” (Morrison, 2015: 22).

A Era de Ouro do regime de Nasser transformou-se, com o passar dos anos, em um ambiente acima de tudo hostil aos refugiados palestinos, confundidos inúmeras vezes com extremistas islâmicos. Fato que tornou-se evidente durante a eclosão de mais uma violenta operação na Faixa de Gaza. Foram durante os ataques em meados do mês de julho de 2014 que o governo e as forças armadas do Egito mantiveram o acesso à fronteira egípcia fechada durante a guerra. O portão de Rafah abriu poucas vezes, quando o governo egípcio anunciou o envio de em torno de 500 toneladas de alimentos e equipamentos médicos e em alguns casos que foram permitidas a entrada dos feridos palestinos para internação e tratamento nos hospitais do Egito.

Os porta vozes palestinos condenavam as ações egípcias frente ao estado de calamidade que estavam sendo submetidos. Por outro lado as forças de segurança do Egito reclamavam que durante a operação Margem Protetora, o Hamas teria atirado cerca de 20 foguetes em direção ao território egípcio, tornando as mediações da fronteira com a Faixa de Gaza muito vulnerável à população egípcia. A imprensa egípcia denunciava o Hamas por alguns assassinatos ocorridos no Egito, pelo assassinato de alguns manifestantes durante os protestos de 25 de janeiro de 2013 e até pelas explosões na base militar de Karam al-Kawades em novembro de 2014 e na base de El-Arish em janeiro de 2015. Alguns advogados egípcios como Samer Sabri e Ashraf Saeed chegaram inclusive a pressionar alguns representantes do governo do Egito à exigirem que o grupo palestino Hamas passasse a ser considerado como um grupo terrorista. “Em fevereiro de 2015, o Tribunal de Justiça para Assuntos Urgentes do Cairo se posicionou à favor em considerar o movimento uma organização terrorista”(Galal, 2015).

De modo surpreendente ao clima de temor frente às ações do Hamas no Egito, o presidente Sissi se negou a classificar o Hamas como um movimento terrorista. Essa atitude inesperada teria sido justificada diante do peso da política internacional do Egito dentro da geopolítica do Oriente Médio, onde a questão da Palestina e a retórica anti-israelense ainda é considerada uma unanimidade entre os países do mundo árabe e islâmico. Outra justificativa seria o apoio da Arábia Saudita ao governo do Egito. O isolamento do Hamas na atual corrida pela supremacia sunita no Oriente Médio poderia levar o grupo palestino à uma maior aproximação com o Irã, o que desagradaria a monarquia saudita e levaria o Egito à um prejuízo econômico bastante considerável.

Ao final, o Egito não isolou completamente o Hamas, porém o modo como o Egito passou a encarar a questão da Palestina mudou drasticamente quando comparado ao governo antecessor. O atual presidente, Abdel Fatah el-Sissi, se aproximou às diretrizes da Autoridade palestina e apoia uma saída diplomática e secular para o conflito Israel-Palestina, qual seja, pela solução de dois Estados nas fronteiras de antes da guerra de 1967.

Por outro lado, a tensão gerada pela presença de grupos extremistas na cena egípcia e nos países vizinhos como a Líbia, a Síria e a Palestina e a obsessão pela segurança gerada pelas ações do Hamas contra civis e militares após 25 de janeiro de 2013 e durante a Operação Margem Protetora na Faixa de Gaza em 2014 contribuíram para o distanciamento da causa palestina no Egito. O Egito, nem de longe lembra aquela nação pan-arabista, “berço” da Al-Fatah e da OLP do passado. A Era de Ouro tornou-se uma miragem distante entre os palestinos no Egito.

 

[1] Luciana Garcia de Oliveira – Mestre no Programa de Estudos Judaicos e Árabes do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo (DLO-USP) e pesquisadora associada do Centro de Estudos Hannah Arendt. Email: luciana.garcia83@gmail.com.

 

Bibliografia

Abu-Amr, Ziad 1993. “Hamas – A historical and political background”. Palestine Journal of the Institute of Palestine Studies vol. 22, nº 4, Summer.

Achcar, Gilbert 2010. The Arabs and the Holocaust – The Arab-Israeli war of narratives. (Nova York: Picador).

“A difficult way foward in Egypt”. Crisis Group, July, 2, 2013.

Brownlee, Jason 2002. “The Decline of Pluralism in Mubarak’s Egypt”. Journal of Democracy, October.

El-Abed, Oroub 2009. Unprotected – Palestinians in Egypt since 1948. (Lebanon: Institute for Palestine Studies).

Galal, Rami 2015. “Egypt challenges court rulling on Hamas “terrorism”. March.

Gresh, Alain 2011. “Os Caminhos da Liberdade”. Dossiê nº 6, Le Monde Diplomatique Brasil (Rio de Janeiro), julho\agosto.

Hroub, Khaled 2008. Hamas – Um guia para iniciantes. (Rio de Janeiro: DIFEL).

Kingsley, Patrick 2013. “Morsi being investigated over claims of “colluding with Hamas” in uprising”. The Guardian, july 27, disponível em:

https://www.theguardian.com/world/2013/jul/26/egypt-morsi-investigation-hamas-collusion.

Kirkpatrick, David D. and El Sheikh, Mayy 2012. “Egypt Opposition Gears Up after Constitution Passes”. New York Times, December.

Morrison, Leah 2015. “Egypt – A desesperate refuge for Palestinians fleeing the Syrian conflict.” Al-Majdal (Bethelehem), Issue nº 57, Summer.

Rollins, Tom 2015. “The Palestinian-Syrian “protection gap” – Inside na Egyptian police station”. Al-Majdal (Bethelehem), Issue nº 57, Summer.

 

 

[2] Setembro Negro é o nome dado ao período que compreende desde setembro de 1970 até julho de 1971, na ocasião da operação militar desencadeada na Jordânia com objetivo de expulsão da OLP do país. A operação resultou em uma quantidade elevada de mortos, algumas fontes jornalísticas calcularam uma estimativa que variava de 3.000 à 5.000 palestinos mortos nos campos de refugiados espalhados pelo país. Uma estação de rádio do Egito, A Voz dos Árabes qualificou o ocorrido como genocídio. A violência e as hostilidades na Jordânia provocaram o deslocamento de milhares de refugiados palestinos.

 

[3] Abu Nidal, cujo nome verdadeiro é Sabri al-Banna foi fundador do grupo extremista Fatah – Conselho Revolucionário, responsável por cerca de 100 atentados terroristas em 20 países. Nidal aproximou-se do líder Yaser Arafat com quem rompeu, mais tarde, em 1974, por considera-lo muito moderado. Mais pra frente Abu Nidal foi condenado à morte pelas instâncias da OLP pela tentativa de assassinato de Abu Mazin, uma das lideranças mais importantes e moderadas da OLP.

 

[4] De acordo com as palavras de Khaled Hroub, na p. 31 da obra Hamas – Um guia para iniciantes, o grupo Hamas foi “primeiramente estabelecidos no Egito, em 1928, na véspera do colapso do Império Otomano. Como o maior movimento islâmico, a Irmandade Muçulmana poderia ser compreendida como a “mãe de todos os movimentos que abrangem a política islâmica” no Oriente Médio (com a exceção do Irã). Durante as oito últimas décadas, suas ramificações se estabeleceram em quase todos os países árabes, e além deles, unindo religião e política no mais alto grau”.

[5] Rafah é uma cidade palestina situada ao sul da Faixa de Gaza na fronteira com o Sinai, no Egito. Nesta cidade está localizada a principal passagem de fronteira com o Egito, que se tornou o principal ponto de entrada e saída de cidadãos da Faixa de Gaza desde as restrições impostas na passagem em Erez, no norte de Israel.

 

[6] Nessa mesma matéria foi apontado que “about 64 percent of voters in the two-part referendum approved the new charter, Egyptian state media reported Sunday, citing preliminar results. About 57 percent voted yes in last weekend’s first phase, which included Cairo, where a sizable majority voted no. In the more rural precints that voted on Saturday, more than 70 percent voted yes, outlining Egypt’s cultural divided”.