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Apontamentos para a Causa Palestina

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Por Yasser Jamil Fayad¹ y Jamil Abdalla Fayad².

Resumo:

O ensaio pretende lançar luzes sobre a totalidade concreta na qual a Causa Palestina está inserida. Não se trata de uma tese final, mas de apontamentos preliminares. A luta pela libertação Palestina é um processo rico, não só nas formas e conteúdos de resistência ao colonizador, como também das possibilidades de alternativas societais que se abrem. A opção pelo socialismo fortalecerá a herança positiva da cultura árabe palestina e será a antítese de beleza que a diferenciará da feiura sionista.

Palavras-chaves: Civilização europeia – Civilização árabe – Capitalismo – Causa Palestina – Socialismo.

Abstract:

The essay seeks to shed light on the concrete totality in which the Palestinian Cause is embedded. This is not a final thesis but a preliminary one. The struggle for Palestinian liberation is a rich process not only in the forms and contents of resistance to the colonizer, but also in the possibilities of
social alternatives that open up. The option for socialism will strengthen the positive heritage of Palestinian arab culture and will be the antithesis of beauty that will differentiate it from the ugliness of zionism.

Keywords: European Civilization – Arab Civilization – Capitalism – Palestinian Cause – Socialism.

 

Introdução

O objetivo desse ensaio é lançar luzes sobre a totalidade concreta na qual aCausa Palestina está inserida. Não se trata de uma tese final e acabada, mas sim detentativas de aproximações daquela práxis emancipatória. A luta pela libertação Palestina abriu as portaspara um processo que pode não se encerrar dentro dos moldes de um “Estado nacional burguês”. O futuro dirá se o povo palestino optará em transcender esses limites rumo ao socialismo – uma certeza temos: no mundo árabe, os palestinos são hoje os que mais podem fazê-lo.Opção que fortalecerá sua herança positiva de solidariedade, fraternidade e justiça com equidade social e econômica. Esta saída será a antítese de beleza que o diferenciará da feiura sionista.

 

O voo do Pássaro-sol Palestino

 

  1. A Questão da Palestina não é, senão, mais uma horrenda e sombria invenção do capitalismo – fruto de sua dinâmicacentralde acumulação que subordina, espezinha e espreme o sumo, sangue e tutano de tudo o que denomina e o fazperiférico.
  2. A civilização europeia nunca quis ficar fechada em si, foi desde sempre uma narcisista ativa,em seus encontros com o “outro”. A Marcha, que representa o fluxo principal de sua evolução, foi essencialmente a da exploração e da dominação, sua concepção que vê o outro como bárbaro e sem alma o limitou ou mesmo impediu encontros que a enriquecesse profundamente. Sua ferramenta essencial foi a violênciaquesubordina o outro e o reconstrói para lhe servir e parecer à imagem, mas nunca com statusde igual. Essa face hegemônica europeia, com seus pares, somente queria matérias-primas como o ouro, petróleo, ferro, minérios, madeira, café, gado, algodão, açúcar e mãos de obra escrava ou semiescrava para saciar sua imensa gula. Esse ocidente político só foi capaz de ver beleza em si mesmo.
  3. O Orientalismo não é, senão, um capítulo da Marcha europeia, uma das faces do processo de homogenização do homem, que deseja apenas as visões de mundo de fundo único que beneficia Europa, EUA, Canadá, Austrália e Israel, que transforma a todos em meras cópias miméticas do American Way Of Life/ Eurocêntrica. Nesse processo, veem ovasto Oriente humano árabe digno somente de uma curiosidade excêntrica e animalesca.
  4. O seu discurso de democracia, cosmopolitismo, universalismo e desenvolvimentonada mais éque uma roupagem para as visões de mundo de fundo único, que são usadas para que os outros engulam goela abaixo seu conteúdo, seusvalores. Em contraposição pejorativaa este discurso a identidade étnicaárabe e religiosa islâmica são apresentadas como atrasos e obstáculos ao seu progresso.
  5. O capitalismo central europeu, quejá havia concluído sua etapa de acumulação primitiva sob as entranhas da classe trabalhadora interna,cria um excedente humano como subproduto da industrialização, da formação das grandes cidades modernas e do êxodo rural,expulsa-osnuma operação de limpeza com função social de estabilidade política interna.Externamente lhe serviu de pilar humano para a necessidade de expansão de uma nova onda de acumulação de matérias-primas e mercados num movimento neocolonialista. É nesse movimento que inventam Israelsobre as vísceras do povo palestino. Como no passado, as Cruzadas discursavam que Jerusalém era a porta para os céus, mas queriam seus tesouros, mercados e rotas comerciais. Mimetizando-os, o sionismo fala em Jeová, mas quer a posição estratégica militar para servir-lhe de auxílio à rapinagem do petróleo eapoio ao controlegeopolítico regional pelo Império, do qual seu papel é de extensão e de lacaio.
  6. O capitalismo transformou-se na grande religião mundial que subordina todas as velhas formas de religião. Os antigos deuses perderam seus postos diante do dinheiro, lucro, mais-valia e desejo de consumo, verdadeiros deuses que controlam o mundo. Israel é um acabamento dessa teologia do capital e suas ações só são inteligíveis dentro dessa óptica.OJudaísmo é uma mera máscaraaos ateus-sionistas ou releitura religiosa de extrema direita ao judeu-sionista. O Judaísmo, enquanto fenômeno religioso, nunca precisou de um “estado” para existir enquanto tal, ao contrário do projeto sionista. Para esse é imperativo um “estado” recheado de ogivas nucleares e arsenais militares, agressor, racista, expansionista, fechado em si diante do outro.
  7. A força do sionismo é sua unidade estratégica, seu militarismo, sua imagem falsa sustentada pela megaindústria midiática que (re)produz diariamente toneladas de imagens, livros, filmes, mas também pelas pequenas seitas religiosas que associam o velho testamento e a colonização sionista num imenso delírio de fanatismo doentio e suturadode racismo do Deus que “elege”, “apadrinha”, “dá eterna carta branca” a alguém em detrimento de todos os outros “não eleitos”. Nesse sentido, o sionismo só poderia nascer como nasceu, no seio do neocolonialismo europeu e ser a continuidade sincera dessa herança maldita.
  8. É uma ilusão acreditar que os trabalhadores modernos em Israel, expulsos da Europa, para o mundo num movimento direcionado, como a colonização sionista, possam deixar a primazia da sua posição de colonizador para assumir uma aliança emancipatória com os trabalhadores árabes.Diferentemente dos demais trabalhadores expulsos da Europa, estes nasceram e mantem uma função colonizadora específica como enclave militar e político na região. Em decorrência disto, não há movimentos políticos e sociais de esquerda, mas somente alguns poucos e heterogêneos indivíduos deste campo político sem peso nesta sociedade.
  9. A Marcha europeia produziu seu acabamento final com o capitalismo, nesse “progresso” rendeuo sistemático genocídio indígena das Américas, martírio negro em África e as guerras de pilhagem em Ásia, Oceania e América Latina.A luta Palestina é uma afirmação de uma variante cultural do gênero humano, uma das faces árabes do mundo que carregaconsigo, na sua resistência e nos seus apontamentos de alternativa, todas as dignidades dos povos que lutam e lutaram contra a expansão predatória da Europa e suas filiais.
  10. A ampliação das formas discursivas e de ações como sugerida adiante para o “conceito de Palestina” não exclui aquilo que vê beleza na luta de libertação e faz uso da potência vingativa desta. Não existem insurreições, revoltas e mesmo processos mais profundos como revoluções sem essa força, da qual os palestinos carregam toneladas em suas artérias.A vingança sempre foi um sentimento de força dos explorados e oprimidos em suas lutas. Quem clama pela exclusão desse sentimento trai essa potência que é redentora. Só pode vingar a história quem dela foi vítima!
  11. O movimento socialista é uma expressãodessa potência vingadora que nasce no coração da Europa numa contramarcha, sintetizando toda sua herança positiva. A revolução socialista é o ponto de metamorfose da vingança da história na mais elevada práxis humana emancipatória.

 

Árabes – os filhos do deserto

  1. A península arábica não possuirios cruzando-a, não existem florestas, o deserto entre a parte central e parte mais fértil na costa do Oceano Índico, não possui oásis e rios perenes. Naquela época, Meca não possuía agricultura própria para seu sustento, pois a água permitiasomente o assentamento de pessoas.Desse cenário surge a necessidade do comércio, da caravana, da peregrinação, do encontro com o “outro”, que nada mais foramque vasosligando e alimentando esse corpo milenar. Dessa nutrição rica de Ásia e África é que o acúmulo civilizacional se desenvolve no ponto cego dos olhos de Europa.
  2. O deserto é a geografia que define o árabe restrito e povoa o íntimo do moderno, ainda que a maioria dos árabes nunca o tenha vivido. É a imensidão indomável que não se subordina nem se submete, que é simples e sua beleza é sua força terrível de exigir que a vida nele se assemelhe a si. O árabe é o humano desse deserto que compreendea constante mudança das areias, das fontes de água intermitentes, das possibilidades. A solidariedade entre os que nele sobrevivem é essencial à vida,formando a base objetiva da sociabilidade, que tanto unifica como rivaliza, “tribaliza” os comuns, pois essa geografia não é capaz de sustentar grandes contingentes humanos, mas também não permite o individualismo, pois sozinho o deserto lhe engole.
  3. O camelo é a nau do deserto – Que os poetas façam Odes a ele! – sua importância para os árabes restritos sedentários ebeduínos é incalculável! A mobilidade comercial e militar, a boa velocidade, a imensa rota que ele é capaz de percorrer entre os desertos sem necessidade de água, a força descomunal, o olhar de quem não teme o deserto: foi através dele que os árabes construíram sua supremacia de terreno. Os desertos se amam, suas areias como tal, se conjugam em toda a região da penínsulaarábica ao crescente fértil, do Maxerreque ao Magrebe, da Ásia central ao crescente fértil tudo se conecta com pequenas intersecções de biomas semelhantes a savanas. Essa é a grande rota dos árabes e seus camelos, foi essa a estrada que edificou a Civilização das areias.
  4. O Islã é uma das chaves do Oriente próximo,sua evolução e ascensão são indissociáveis da invenção do mundo árabe moderno. É preciso ter clareza que ele não foi um fenômeno stricto sensureligioso, foi um fenômeno político novo em seu tempo, transfigurando a sociedade árabe de então, dando unidade linguística, uma escrita com caracteres próprios e fixos – o árabe clássico definido pelo Alcorão, uma unidade política e militar com o Profeta e Seus Aliados próximos. O Islã é fruto da cultura árabe restrita que deu coesão e direção ideológica as tribos peninsulares para o movimento de expansão fulminante que engoliu outros povos e mastigou-os, digeriu-os e remontou-os a sua semelhança. A língua árabe é o Islã.
  5. A historiografia ocidental e árabe islâmica oficial coincide em tratar os árabes do período pré-islâmico com um olhar negativo. Para o Islã, que se afirmava era compreensivo essa negação do passado, chamando-a de “Era da ignorância”,pois ele próprio queria superá-lo. Já no caso Europeu, tratava-se da repetição do olhar negativo sobretudo o que não é espelhoou que não lhe tem serventia de uso. Apesar de pouco documentado, esse período nada teve de pobre, primitivo, pelo contrário,foi rico em poesia, literatura oral, nele se forjaram as condições subjetivas e objetivas para o salto qualitativo do período do surgimento do Islã. A caravana do comércio e da peregrinação alimentou os árabes pela boca e também o espírito. Além das trocas comerciais habituais nesses encontrosse trocavaconhecimentos, saberes, artes, culturas, pessoas das mais diversas fontes eram recebidas nesse mundo pré-islâmico. É provável que até mesmo o último profeta Muhammad (que apaze a bênção de Deus estejam sobre ele) tenha antes da Revelação conhecido outras culturas, como mercador que foi.
  6. A primeira vitória do Islã foi sua habilidade de coesão tribal, nesse mundo árabe restrito, o tecido social era demasiadamente fragmentado para uma expansão que necessitava de uma coordenação política e militarmente centralizada.Somente pela cosmovisão religiosa e pela habilidade política de Muhammad e seu grupo(que apaze a bênção de Deus estejam sobre ele e seus companheiros) que os árabes deram um salto qualitativo de um mundo restrito a península arábica ao gigantesco domínio que ligava três continentes.
  7. Essa sociedade árabe restrita já não tinha como expandir-se geograficamente, já não podia manter-se em si mesma, seu comércio necessitava de novas rotas e controle sobre outras. Sob uma conjuração única, os árabes restritos criavam unidade e visão de mundo comum (“Assabiyah”, conceito de Ibn Khaldun), para saírem de si num momento em que os Persas e Bizantinos estavam fracos. No processo de expansão dos árabes sua dominação não se apresenta como “estranha”, “estrangeira”. Eles não hostilizam o vencido militarmente, não estupram, não violam cemitérios ou templos (em especial, cristãos e judaicos), não forçam pela violência a conversão religiosa,… rapidamente criaram canais de absorção do conquistado… uma extensão da hospitalidade árabe, da curiosidade mercantil pelo outro… a islamização era antessala da arabização – processo de desfazer e refazer os povos conquistados em árabes modernos.É nesse processo complexo que os palestinos de outrora se transfiguram etnicamente em árabes.
  8. Os árabes desenharam um processo civilizacional distinto do fluxo majoritário ocidental em sua forma e conteúdo, de longo fôlego, de longa extensão territorial (Espanha a China). Foram capazes de se deparar com culturas e conhecimentos mais sofisticados do que possuíam, sem negá-los ou destruí-los pela força cega, nem absorvê-lo mecanicamente, ou seja, não foram um furacão que apenas passa e deixa rastro de destruição, nem tampouco cultural e politicamente foram vulneráveis a deixarem de ser si mesmos diante dos Impérios que absorveram. A conversão ao Islã foi encorajada e ligada à alfabetização do idioma da revelação divina. O controle das grandes rotas comerciais, das cidades polos desse comércio exigia uma capacidade maior do que a mera pilhagem – a sedimentação externa ao território da península os moldará num novo árabe (2º Grande salto qualitativo). A cultura árabe forjou-se aberta a influências, a “umrãn” é a comunidade em construção permanente (conceito de Ibn Khaldun), com uma capacidade única de novas sínteses, de sincretismos ricos em todos os campos (incluso religioso), destruindo, construindo e reconstruindo a si mesmo e ao outro como continuidade da cultura árabe – com a ambição de ser a melhor síntese de todas as culturas e conhecimentos. Seus valores, sua religião, sua unidade deram a eles a posição orgulhosa de si o suficiente para não abdicarem da sua própria identidade étnica, souberam enriquecê-la, tricotaram novos pontos seguindo a orientação base da trama da cultura árabe restrita: fizeram um novo tecido sócio-étnico-cultural,nascedouro de um novo árabe!
  9. Se por um lado a flexibilidade, a capacidade de adaptação, de absorção dos árabes em expansão mostrou ser seu grande trunfo em distinção a Marcha europeia, por outro lado deixava claro as fraquezas de uma instabilidade política do Império que se erguia. Esse tecido social que se formava era gelatinoso e heterogêneo, sem um esqueleto capaz de lhe dar estabilidade – papel cumprido pela instituição Igreja na experiênciaeuropeia – desde a morte do profeta Muhammad(que apaze a bênção de Deus estejam sobre ele), as cisões políticas já começavam aparecer e se traduziam em distinções religiosas, seitas e facções. A falta de intuições que dessem continuidade histórica é um dos grandes dramas do mundo árabe – sempre que esse ensaiou uma tentativa… essa falhava.
  10. O nascimento étnico do árabe se faz na península arábica. Ele é o sujeito de uma civilização que dialoga como outro, curiosa sobre as diferenças, habilidosa ao lidar com elas, mas que até então jamais saíra de si. Essa civilização se unifica com o Islã – seu Profeta encarna a liderança desse movimento que não está voltado para si mesmo, que quer se expandir pelo mundo conhecido e além. Esse é o árabe acordado de um sono de 2 mil anos (1º Grande salto qualitativo) – acordado, pois vê sua coesão, visão comum e unidade como força (“Assabiyah”). Esse árabe, que engole as demais civilizações e as digere transformando-as, (re)significando-as, em uma nova configuração, que dá novo conteúdo étnico a si mesmo e aos outros, que arabiza… vencendo seu sentido “restrito”, do qual o grande califado Omíadasfoi sua maior expressão política… e o 2º Grande salto qualitativo – o nascimento do árabe moderno, os abássidas são o romper deste.
  11. As Cruzadas são a resposta europeia à ascensão doIslã/árabes. O elevado grau de violência usado pelo invasor branco foi algo não esperado pelos árabesislâmicos, como os relatos dos cronistas deixam claro. Essa atonicidadedeu-seem decorrência das relativas boas relações com que os mulçumanos, cristãos e judeus mantinhamsob domínio islâmico, em especial na Palestina. Desde a chegada do califa Omar(que apaze a bênção de Deus estejam sobre ele), a Palestina é declarada uma “waqf” (terra de Deus) e esse decreto é irrevogável até o Juízo Final na lei islâmica (“Sharia”), ou seja, os mulçumanos não se entendem senhores da terra sagrada, mas apenas seus guardiões – a terra é de todos os crentes em Deus. A primeira resposta árabe a essa horrenda agressão foi a negociação sob a pressão e o medo. A segunda resposta é fruto da unificação política e militar no período de Saladino, que era capaz de “destruir” com facilidade os cruzados, mas não o faz, prefere a negociação sob outra relaçãode força. A terceira resposta é a violência aberta dos mamelucos para expulsar o invasor incapaz de viver com a diferença altivado outro.  A Civilização árabe nunca quis destruir o outro, mesmo os agressores de Europa – ela não se forjou assim, não pertence a seu ímpeto essa modalidade de encontro.
  12. Sunitas versus Xiitas é a versão hollywoodiana pobre e podre para tudo que acontece no Oriente próximo e no Mundo islâmico. Quer esconder a luta encarniçada entre os imperialistas e seus aliados, dos quais Israel é cão fiel e a elite Saudita a odalisca preferida, contra as forças heterogêneas contrárias.
  13. A Causa Palestina pode ser tomada no sentido de “potência acumulada”, essa há muito vem sendo alimentada pela sua própria práxisque desvendou o Império, Israel e seus tentáculos, as elites árabes,a solidariedade das esquerdas e dos povos do mundo inteiro, podendo assim se (re)encontrar com aquele ímpeto que tomou o mundo vertiginosamente e criou momentos civilizacionais ímpares para humanidade (Califado Al-Andaluz, Bagdá dos Abássidas, o encontro com Índia (Taj Mahal), com China,com África no Mali, etc.). Nesse sentido, a Causa Palestina contém em si, potencialmente um novo “momentum” desse árabe que se (re)fará como há 1500 anos num novo projeto homem e de sociedade – Um Grande salto mais ousado do que o primeiro e segundo descritos – um salto para uma sociedade socialista e árabe.

 

Palestina – a joia mística

  1. A Nakba é mais que uma data, é um longo processo de vitimização de um povo. É a aparência do fenômeno sionista que não ilude sua essência colonialista,racista eservil ao Império. A Nakba não é uma catástrofe, um incidente terrível, ao contrário, ela foi meticulosamente planejada e executada com todos os requintes de crueldade, uma síntese perfeita do pior desta Marcha europeia. Os carrascos esperavam que as vítimas tombassemou se diluíssem entre os árabes dos países vizinhos, apostavam no esquecimento da Palestina pelo seu povo… mera ilusão.A Nakba é uma tragédia civilizacional não só palestina, mas de toda a humanidade.
  2. A luta pela libertação da Palestina é obra de seu próprio povo, sendo o único interlocutor legítimo de si mesmo.Aquele sionista arrependido, o ex-assassino de crianças do exército sionista, o judeu humanista, o judeu defensor dos animais abandonados e das crianças palestinas e, mesmo, os indivíduos da esquerda dentro de Israel – não são e não serão os interlocutores da voz Palestina. A digna Causa Palestina não é uma questão interna da colônia-monstro Israel. Cabe a estes promoverem um único gesto verdadeiro que é construir um movimento de massa interno que contribua com fim da colonização.
  3. As esquerdas em seu amplo leque pisam no terreno pantanoso dos pseudoconceitos de judeu, povo, diáspora, reino de Israel, hebreus, holocausto, essa verdadeira indústria que obstaculiza o movimento de entendimento do fenômeno e esquecemque essa é parte fundamental da imensa engenharia que inventou e mantém Israel.Também não cabe as esquerdas a posição pedante de quem quer ensinar o povo palestino, poisessa postura traduzmiséria política-pedagógica.
  4. Na sua práxis de libertação, o povo palestino desvendou, não sem traumas e dolorosas desilusões, o papel das forças políticas e sociais que o cercam e o permeiam. Foi assim com o papel do Império britânico e da colonização sionista, que inicialmente erambem-vindos a “waqf” e mesmo festejados na Palestina, mas logo ficaram claras suas reais intenções de estabelecer ali uma colônia de substituição populacional a serviço do Império. O papel das elites árabes regionais que rifaram os palestinos em benefício próprio, mas não menos doloroso foi a descoberta de que a elite árabe palestina (a exemplo da regional) queria ser o interposto entre seu povo e o Império – não sabia essa que o sionismo era o interlocutor oficial e não queria nenhum palestino na Palestina, incluso a burguesia e aristocracia rural. Os palestinos aprenderam que só podem contar com sua própria força, força dos trabalhadores e daqueles que assumem essa perspectiva de classe.
  5. A resistência palestina precisa fortalecer e ampliar o conceito de Palestina,não mais apenas o da terra que pertence ao povo palestino, comum a todos os crentes e não crentes, mas também:
  6. O conceito de território cerceado – da qual Gaza e os campos de refugiadossão a ligação com todos os guetos, favelas, periferias do mundo.
  7. O conceito de limpeza étnica – comuns aos povos indígenas das Américas, África,Oceania e Ásia que sofreram e sofrem os reflexos da expansão europeia.
  8. A luta reivindicatória por moradia – que a liga as reivindicações de milhares de explorados da Terra.
  9. A luta reivindicatória por terra – que a liga a luta de resistência indígena nas Américas, a luta pela reforma agrária, luta da agricultura familiar pela produção de alimentos, do controle das fontes hídricas, de suas riquezas minerais, de suas florestas.
  10. A luta antirracista – elo importante com todas as etnias oprimidas da Terra.Portanto dar ênfase ao conceito de Palestina com as lutas de todos os explorados e oprimidos, com a clara pretensão de que não exista nenhuma reivindicação justa que não tenha um paralelo com a Causa Palestina.
  11. Enquanto os palestinos estão fadados a lutar pela sua liberdade e sua terra, carregam consigo todos os valores nobres e belos desse tipo de luta como coragem, solidariedade, justiça e amor.Ao sionista resta o mísero papel do explorador e opressor com todos os valores e feiuras que esse tipo exige como covardia, arrogância, belicismo e assassinato.O que ironicamente é a reafirmação prática das acusações do antijudaísmo secular europeu, ou seja, o sionismo é a verdade do antijudaísmo secular europeu.
  12. Oslo é um reflexo da acomodação de classes onde a burguesia árabe-palestina, a aristocracia rural religiosa e os setores das camadas médias (em especial,as expulsas que perderam suas posses) se veem inicialmente dentro da grande luta de resistência do povo palestino e depois recuam durante a evolução dos enfrentamentos. O recuo vinculou-se tambémàs mudanças de cenários como a destruição do Pan-Arabismo, o enfraquecimento do Movimento dos Não Alinhados e a queda do Bloco Socialista.Essasacomodações levaram até mesmo a negócios comuns, acertos e diálogos com os sionistas. Notoriamente, na burguesia não expulsa (que não perdeu suas posses) da Cisjordânia e Jordânia palestina – forçaram também o deslocamento político conciliatório da sua principal organização o Fatah. Olso é o acabamento desse processo de esvaziamento do teor de luta da burguesia árabe-palestina, da antiga aristocracia e de setores das camadas médias – rifando, abandonando elementos poderosos da Causa Palestina, como por exemplo, a questão do retorno de refugiados e do reconhecimento de Israel.
  13. Por outro lado, Oslo também é a demonstração cabal de que o sionismo não pretende ceder nem sequer a um “Estado palestino” controlado, fraco, debilitado, raquítico. Nesse sentido, todas as formas de diálogo, incluso o submisso e humilhante, foram fechados pelos sionistas – a partilha mostrou-se ilusão.
  14. O que é Israel senão uma cópia sem graça, sem sabor e temperodessa facedo mundo europeu, algo completamente fora do lugar! Nada tem aver com o mundo que o cerca, permanentemente fechada em sua fantasia de superioridade.Sem o muro, quem é essa gente? O subproduto desse ocidente falido e fútil, que os árabes com sua cultura milenar podem engolir facilmente como já fizeram com povos muito mais interessantes– o muro lhes serve de garantia de não se transformarem em árabes. Israel é simplesmenteo muro!
  15. Os palestinos são aqueles que não foram derrotados pelo sionismo. A potência acumulada em quase 70 anos de umariquíssimaresistência política e imensa práxis libertadora (armada, poética, de greves, de passeatas, não violenta, literária, artística, diplomática, etc.) tornou o povo o mais politizado e organizado entre os árabes. Seu processo de luta anticolonial o colocou em contato com a luta de Argélia, de Vietnam, de África do Sul, de Cuba, do Bloco Socialista, dos Não alinhados, transformando radicalmente o conteúdo de negação do estado colonialista de Israel em um conteúdo de superação dialética deste. Os palestinos não querem ser Israel (racista, belicista, colônia, filhote do Império, etc.), mas sua antítese. Nesse sentido, o socialismo aparece no horizonte como resposta adequada a fusão do melhor da tradição árabe com o melhor da tradição europeia… os palestinos estão abertos a essa possibilidade histórica. Esse socialismo não será uma cópia dasexperiências europeias, como tal, será incorporado num salto qualitativo (o 3º Grande salto). A Palestina socialista será a vanguarda e a pedagogia do exemplo para todos os árabes e além… será o esplendor de um novo “momentum” civilizacional da humanidade.

 

Bibliografia:

Al-Jabri, Mohammed Abed 1999 Introdução à crítica da razão árabe. (São Paulo: Editora UNESP).

Fayad, Yasser Jamil 2015 Nosso verbo é lutar: Somos todos Palestinos.(Florianópolis: Edição independente).

Khaldun, Ibn 1958 Os prolegômenos ou filosofia social. (São Paulo: Editora Safady).

Kanafani, Ghassan 1986 Contos da Palestina: O Povo Sem Terra. (São Paulo: Editora Brasiliense).

Kanafani, Ghassan 2009 Homens ao Sol. (São Paulo: Editora Bibliaspa).

Kanafani, Ghassan 2015 A Revolta de 1936-1939 na Palestina. (São Paulo: Editora Sundermann).

Maalouf, Amin 1988 As Cruzadas Vistas pelos Árabes. (São Paulo: Editora Brasiliense).

Said, Edward W. 2007 Orientalismo: oriente como invenção do ocidente. (São Paulo: Cia das Letras).

Vazquez, Adolfo Sánchez 2011 Filosofia da Práxis. (São Paulo: Expressão Popular).